O poder real em Cuiabá e Mato Grosso

18/03/2019 às 14:23


A Entrelinhas Editora abre a sua participação nas comemorações dos 300 Anos de Cuiabá com o lançamento do livro O poder metropolitano em Cuiabá (1727-1752), do historiador Otávio Canavarros. O lançamento faz parte também das comemorações dos 25 anos da editora.


Há 10 anos com edição esgotada – a primeira foi realizada pela Editora da UFMT –, agora o livro ganha uma nova e primorosa edição, ilustrada com detalhes de antigos mapas espanhóis, portugueses, holandeses, e inglês, alguns inéditos na divulgação de estudos e da produção acadêmica atual. Nos cursos de graduação e pós-graduação o livro tem sido utilizado como suporte didático. O conteúdo do livro foi defendido como tese acadêmica na USP.


Otávio Canavarros explica, sobre o livro: “Na construção da nossa narrativa histórica, destacamos como objetos principais de investigação a questão da conquista e ocupação das imensas porções de terra que hoje constituem o Centro Oeste do Brasil. Conquista em sentido duplo, arrancadas dos súditos de Castela e de numerosos povos indígenas. Para tal, tivemos que trabalhar com alguns conceitos e recortes cronológicos, dentre os quais, os de “poder metropolitano” e “extremo oeste”, configuramos como os mais importantes. O conceito de poder metropolitano, por exemplo, significa no contexto, o próprio Portugal, simbólica e efetivamente, como coroa, súditos e representantes diversos com as instituições respectivas. Poderíamos dizer, em outras palavras, que se tratava da projeção do poder real, num regime caracterizado como absolutista, nos quadros do Antigo Regime. Quanto aos recortes referidos acima, privilegiamos os anos de 1727 e 1752, como balizas cronológicas maiores da narrativa, referentes às fundações das vilas de Cuiabá e Vila Bela da Santíssima Trindade.”


A tese só foi possível a partir de um significativo trabalho de prospecção e transcrição de documentos manuscritos e microfilmados, procedentes do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa. Foram mais de duzentos e cinquenta deles, de difícil e morosa leitura. A tese apresentou fundamentos arquivísticos inéditos.



Sobre o autor

Otávio Canavarros (1945) nasceu em Rosário Oeste, estado de Mato Grosso. Estudou no Liceu Cuiabano, no Colégio Pedro II do Rio de Janeiro, na Faculdade Nacional de Filosofia da antiga Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde graduou-se em História (1968). Fez mestrado e doutorado em História Econômica pela Universidade de São Paulo (USP) nos anos de 1972 e 1998, respectivamente. Realizou diversos cursos na École des Hautes Études em Sciences Sociales (Sorbonne) e na Université de Paris (Nanterre), em 1972 e 1974. Pesquisador com atuação nas áreas de História Regional do Brasil, publicou O poder metropolitano em Cuiabá (1727/1752), 1ª. edição pela EdUFMT em 2004; Coletânea de Documentos Raros do Período Colonial (1727-1746), em 4 volumes, uma coedição da Entrelinhas com a EdUFMT, em 2007, e a Coleção de Documentos Raros: Notariado e Legislação de Mato Grosso no Período Colonial (1728-1744) pela EdUFMT em 2009. Atualmente é professor-associado e aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), onde integrou o corpo docente do Programa de Pós-graduação, mestrado em História, do Instituto de Ciências Humanas e Sociais.



Pelo prazer da leitura

Maria de Fátima Costa – Historiadora da Universidade Federal de Mato Grosso


Há mais de dezessete anos, a convite da editora da UFMT, me dispus a ler a tese O poder metropolitano em Cuiabá (1727-1752), de autoria do colega Otávio Canavarros. A finalidade era emitir um parecer, recomendando ou não a sua publicação. Imaginava mais um afazer técnico, como tantos que costumamos realizar como avaliadores. Mas, para minha surpresa, o que chegou como tarefa, a cada página, ia se tornando um deleite. Quanta aprendizagem! Recordo que só consegui soltar o exemplar ao concluir a última palavra. Estava verdadeiramente encantada. E, nesse estado, mais que as poucas linhas exigidas, coloquei sobre o papel a satisfação que a leitura me produziu. Logo tive a alegria de ver o estudo de Otávio ganhar forma de livro, o que aconteceu em 2004, uma edição rapidamente esgotada, que na contracapa reproduzia um dos parágrafos daquele parecer.


Passou tanto tempo e agora, estimulada pela editora Entrelinhas, retorno àquelas anotações e, com pequenos ajustes, as coloco aqui à guisa de uma singela apresentação, nesta merecida segunda edição. Dispensa dizer a alegria que sinto ao ver chegar novamente a público esta grande obra.


Trata-se, como escrevi em 2001, de um bem fundamentado estudo sobre os primeiros trinta anos da presença luso-brasileira nas terras hoje mato-grossenses. Ler este trabalho é adentrar no universo fascinante que só um historiador de grande erudição pode fornecer. Canavarros conduz o seu leitor a revisitar as páginas daqueles que, em lugares e tempos diversos – e de formas diferenciadas –, contribuíram na construção da história da região cujas terras sempre estão próximas de algum rio platino ou amazônico. Mais ainda, apresenta uma farta documentação, tanto manuscrita como impressa. É no profícuo diálogo que estabelece com fontes e autores que faz surgir a universal história de Mato Grosso. E, ao mesmo tempo, dá forma ao seu objeto, de maneira a arrematar, página a página, os finos fios que tramou ao construir sua proposta de estudo. Uma aula de História.



Seu objetivo principal é o de demonstrar que a estruturação do poder metropolitano na Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá fez parte da estratégia do governo lusitano, no sentido de assegurar a posse das terras conquistadas aos espanhóis, a Oeste da linha de Tordesilhas. Para tanto, e de forma clara e bastante contundente, o autor vai buscar a política desenvolvida pela Coroa Portuguesa a partir do ilustrado reinado de João V, demonstrando, com passos seguros e densa documentação, como se deu o desenvolvimento dessa política, no sentido de assegurar os novos territórios que então se conquistavam. É nesse contexto que explica a criação da Capitania de Mato Grosso e Cuiabá e a fundação, no Vale do Guaporé, de Vila Bela da Santíssima Trindade, na qualidade de vila-capital; feitos fundamentais do estado lusitano para consolidar a posse desse espaço interior, como efetivamente se verá em 1750 nos termos do Tratado de Madri e depois, em 1777, no Tratado Preliminar de Santo Ildefonso.


Para desenvolver a argumentação e comprovar suas hipóteses, Canavarros reconstrói, didaticamente, a estruturação de cada um dos órgãos administrativos que foram instalados na Vila Real do Senhor Bom Jesus do Cuiabá, discute a abertura e viabilidade dos caminhos terrestres, sempre mostrando que não se tratava de eventos fortuitos, mas sim de uma complexa rede político-administrativa controlada a partir de Lisboa. Demonstra, ainda, como a “penetração dos sertões a Oeste fez-se à custa dos índios, mas também dos espanhóis”. Para dar visibilidade a essas suas palavras, por um lado, traz à tona tanto os sangrentos massacres que, com o título de “guerra-justa”, os luso-brasileiros impuseram no Pantanal aos canoeiros Payaguá, como as estratégias usadas contra os cavaleiros Guaikuru, e também contra os Bororo do vale do rio São Lourenço. Por outro, deixa claro como a política espanhola – que tinha como objetivo maior a preservação das ricas minas do altiplano peruano – e os conflitos entre jesuítas e colonos, de forma indireta, facilitaram a presença dos mamelucos paulistas nas terras da bacia do Alto Rio Paraguai. Certo é que, ao finalizarmos a leitura, nos damos conta da intensidade da história tratada e de como as explicações totalmente fundamentadas nos revelam como ocorreu, no início do XVIII, a construção administrativa desse espaço que hoje se configura nos estados brasileiros de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Rondônia.


Na elaboração dos seus argumentos, Otávio discute sinceramente com a historiografia precedente. Porém, não está preocupado em desmontá-la, mas sim em reconhecer a contribuição dada, apontando, sempre com elegância, as suas discordâncias e, principalmente, extraindo com segurança a contribuição que ela tem a dar à sua argumentação. É dessa forma que nos traz os escritos de Jaime Cortesão (1884-1960), historiador lusitano cujos trabalhos são de essencial importância para aqueles que querem adentrar no universo da história da conquista e colonização do centro sul-americano, como os do britânico Charles Boxer (1904-2000) e do estadunidense Dauril Alden (1926-), entre outros. Também é admirável o profícuo diálogo que estabelece com a produção local, reconhecendo, como poucos, a contribuição dada na década de 1980 pelos pesquisadores mato-grossenses, principalmente aqueles vinculados ao Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional – NDHIR/UFMT.


Canavarros é um historiador dadivoso e possibilita ao seu leitor a riqueza das fontes que arduamente levantou, transcreveu e analisou nos muitos arquivos e bibliotecas que frequentou entre Mato Grosso, São Paulo e Rio de Janeiro. Tem ainda duas qualidades essenciais, sabe escrever e cultiva a leitura. Suas ideias são postas de maneira objetivamente clara e em seu texto não há nada que nos deixe com aquela sensação de fio solto, pensamento inacabado ou apropriação indébita.


Todos nós que lidamos com a documentação manuscrita do século XVIII sabemos como é difícil extrair dessas fontes os argumentos que buscamos e com elas criar uma narrativa atraente e contemporânea. Otávio faz isso com maestria. E mais, longe dos modismos acadêmicos, apoia-se nesses testemunhos para tratar do seu objeto, e aí, demonstrando a sua sólida formação historiográfica, bebe dos argumentos teóricos fornecidos por escolas distantes apenas quando esses hidratam o seu estudo ou aportam significados às questões tratadas. Em todo o seu livro, e isso é realmente meritório, não há qualquer citação vazia ou descontextualizada. O que transparece é o primor da pesquisa, em diálogo seguro com a bibliografia pertinente.


Trata-se, sem dúvida, de um magnífico estudo. Sua publicação em 2004 abriu veredas e possibilitou novas reflexões, não apenas sobre a estruturação do poder metropolitano em Cuiabá, mas, além disso, como disse à época, tratava-se de uma obra que estava – e continua estando – destinada a ser referência fundamental às discussões sobre a história dessa região.


A nova edição de O poder metropolitano em Cuiabá (1727-1752), que a Entrelinhas traz a público quando Cuiabá comemora 300 anos de presença colonizadora, é um presente para todos nós. E saúdo com grande alegria a possibilidade de ver que novas gerações de estudantes e pesquisadores podem ter contato com as belas páginas desta bem fundamentada obra.


Cuiabá, [8 de maio de 2001] 2 de outubro de 2018



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Fonte: Assessoria

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